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A Consciência... ( Oliver Harden )
A consciência é, talvez, a mais sofisticada das prisões, precisamente porque não possui grades visíveis. Ela não se impõe como força externa, mas como presença interior, silenciosa e persistente, que observa, interroga e, sobretudo, não se deixa silenciar. Diferente das coerções do mundo, das leis e das expectativas sociais, a consciência não pode ser simplesmente desobedecida, pois nela reside o tribunal último diante do qual o sujeito comparece inevitavelmente.
Há, em sua natureza, uma dimensão dolorosa que não deve ser confundida com mero sofrimento psicológico. A dor da consciência é ontológica, ela nasce do confronto entre aquilo que somos e aquilo que sabemos que poderíamos ser. Nesse sentido, ela é inquisidora não por crueldade, mas por fidelidade à verdade. Como um juiz incorruptível, ela não se satisfaz com justificativas fáceis, não aceita as narrativas confortáveis que o ego constrói para preservar sua imagem. Ela insiste, retorna, reaparece, como uma memória que se recusa a morrer.
No entanto, seria ingênuo supor que a consciência é apenas um farol de lucidez. Há momentos em que ela se torna também ludibriante, não no sentido de mentir deliberadamente, mas de se deixar contaminar pelas camadas mais profundas do desejo, do medo e do ressentimento. O homem não apenas escuta sua consciência, ele a interpreta, e nessa interpretação infiltra-se o risco da distorção. Aquilo que se apresenta como voz interior pode ser, por vezes, apenas o eco sofisticado de nossas inclinações mais ocultas. A consciência, então, deixa de ser espelho e torna-se labirinto.
Ainda assim, mesmo em sua ambiguidade, ela permanece inescapável. Pode-se ignorá-la por um tempo, pode-se anestesiá-la com distrações, com ruídos, com a superficialidade de uma vida voltada exclusivamente para fora, mas ela retorna. Retorna no silêncio, na solidão, na noite em que o sujeito se encontra consigo mesmo sem intermediários. E nesse retorno há algo de implacável, pois não há argumento que a dissolva completamente.
É por isso que fugir da consciência não é apenas impossível, é também uma forma de intensificá-la. Quanto mais o homem tenta escapar de si, mais se aprofunda a cisão entre o que vive e o que sabe. E essa fissura, longe de desaparecer, amplia-se até tornar-se insustentável. A consciência, nesse sentido, não é apenas um fardo, é também uma exigência, a exigência de coerência, de verdade, de enfrentamento.
Talvez a maturidade consista precisamente em abandonar a ilusão de paz fácil e aceitar o desconforto lúcido que ela impõe. Não como punição, mas como possibilidade. Pois é justamente na tensão que ela cria que o homem se torna capaz de ultrapassar a si mesmo. A consciência fere, sim, mas é essa ferida que impede a estagnação. Ela desestabiliza, acusa, inquieta, mas, ao fazê-lo, preserva algo essencial, a possibilidade de não se reduzir àquilo que já se é.
Texto de Oliver Harden...
Autor: Eduardo Gomes Data: 22/04/2026
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