Poesias

OLIVER HARDEN       Voltar   Imprimir   Enviar   Email

O Tribunal Interior, Sobre a Necessidade de Julgar e o Terror de ser Julgado: ( Oliver Harden )

Há uma contradição que atravessa o ser humano de ponta a ponta, silenciosa e implacável: o mesmo homem que treme diante do olhar alheio é, precisamente, aquele que não consegue suspender o seu próprio julgamento sobre os outros. Julgar é, antes de tudo, um ato de sobrevivência cognitiva. Categorizar, avaliar, distinguir o seguro do perigoso, o confiável do suspeito, o digno do indigno, são operações que o espírito humano executa sem pedir licença, com a mesma necessidade instintiva com que o pulmão respira. Negar isso seria uma confissão de ingenuidade filosófica.
 
Mas o problema não está no ato de julgar em si, que é condição da vida inteligente e do convívio moral. O problema está na dissimetria perturbadora que governa a alma: exige-se do outro a clareza de um espelho e recusa-se, para si mesmo, a nitidez que esse mesmo espelho devolveria. Somos juízes implacáveis do tribunal dos outros e réus aterrados no nosso próprio. É esta assimetria que Nietzsche flairou com precisão cirúrgica quando denunciou, na moral do ressentimento, a sublimação da fraqueza em virtude, e a elevação do julgamento alheio a consolo dos que não ousam agir.
 
O medo de ser julgado, por sua vez, não é uma patologia contemporânea. É uma das mais antigas angústias da condição humana, presente nos ritos de passagem das culturas arcaicas, na confissão sacramental das tradições religiosas, na praça pública da Atenas de Sócrates. O que a modernidade fez foi amplificá-lo geometricamente, ao substituir a praça por um panóptico ubíquo onde todos observam todos, e a sentença já não precisa ser pronunciada em voz alta: ela pulsa nos silêncios, nos olhares desviados, nas ausências de aplauso. Tocqueville, com uma lucidez que o nosso século ainda não soube superar, advertiu que a tirania nas democracias não precisaria de algemas, bastaria o peso sufocante da opinião coletiva sobre a consciência individual.
 
Julgar é, em essência, um ato de ordenação do caos. O mundo, em sua brutalidade indiferente, não se apresenta à consciência como um conjunto ordenado de significados, mas como uma torrente de estímulos que exige interpretação urgente. O julgamento é, portanto, a faculdade pela qual o ser humano transforma o dado bruto em sentido vivível. Aristóteles já o sabia, ao definir a phronesis, a prudência prática, como a virtude que permite julgar bem em circunstâncias particulares, sem a rigidez da lei geral. Julgar bem, dizia ele, não é aplicar uma régua, é compreender a textura singular da situação.
 
O problema começa quando o julgamento deixa de ser ferramenta e se torna vício, quando migra da esfera da inteligência para a esfera do caráter. La Rochefoucauld, naquelas máximas que parecem lapidadas no mármore negro da experiência humana, observou que criticamos os outros com a severidade que reservamos para nós mesmos a indulgência. Esta inversão não é acidental. Ela cumpre uma função psicológica precisa: ao condenar a fraqueza no outro, o sujeito exorciza, provisoriamente, a consciência da mesma fraqueza em si. O julgamento severo do próximo é, não raro, uma liturgia de autoabsolvição.
 
Mas seria simplismo psicologista reduzir todo julgamento a projeção ou a mecanismo de defesa. Há julgamentos que nascem de amor, de cuidado ativo pelo outro, de uma recusa em ser cúmplice da mediocridade alheia. Há julgamentos que são formas de lealdade. O pai que censura o filho, o amigo que aponta o erro do amigo, o crítico que não cede ao elogio fácil, todos exercem uma forma de julgamento que pressupõe, ao contrário da malícia, uma profunda crença na capacidade do outro de ser melhor. Este é o julgamento como acto de fé, que Camus, à sua maneira, praticou ao recusar o niilismo confortável e ao insistir que a lucidez sobre o absurdo não isenta o homem da responsabilidade de julgar e agir.
 
O medo de ser julgado, na sua camada mais profunda, não é medo da opinião alheia. É medo do próprio olhar. O olhar do outro não é mais do que o espelho que nos força a confrontar aquilo que, com paciência e habilidade consideráveis, temos conseguido não ver. Pascal compreendeu isso melhor do que quase todos: o homem, escreveu ele, é incapaz de ficar sossegado num quarto, e esta incapacidade não é fruto da curiosidade ou da sociabilidade, mas da fuga de si mesmo. O barulho do mundo é o anestésico mais eficaz contra a lucidez interior.
 
O julgamento alheio dói não porque o outro seja perspicaz, mas porque, frequentemente, acerta. Ele nomeia aquilo que o sujeito sabe, mas recusou nomear. E há uma violência particular nesta nomeação, a violência de ser visto antes de estar pronto para ser visto, de ser definido antes de ter concluído o trabalho de se definir. É por isso que a vergonha, emoção que Sartre analisou com rigor fenomenológico, não é apenas desconforto social: é a experiência de ter a própria existência coagulada pelo olhar do outro, de ser transformado em objeto, em coisa com contornos fixos, quando toda a vida interior protesta que se é, acima de tudo, um devir.
 
Mas Sartre, ao formular esta sentença famosa, sabia que ela não era um elogio ao isolamento. Era um diagnóstico. O inferno não são os outros em si: são os outros que me petrificam, que me reduzem à sua imagem de mim, que me impedem de ser o que ainda não sou. O drama é que precisamos desse olhar. Sem o outro, não haveria consciência de si. É no atrito com a alteridade que o sujeito se descobre, e é precisamente neste atrito que reside tanto a dor como a possibilidade de crescimento. A saída não é a indiferença ao julgamento, mas a soberania suficiente para não se tornar o seu refém.
 
A questão filosófica que permanece, depois de examinar as entranhas do julgamento e do medo de ser julgado, é esta: existe uma postura que não seja nem a hipocrisia do "não julgues" nem a crueldade do julgamento sem misericórdia? Existe. E ela é, talvez, a mais exigente de todas: é a postura do julgamento que se sabe provisório, que reconhece os seus próprios limites, que condena o ato sem liquidar a pessoa, e que, ao fazê-lo, não se furta à consciência de que o juiz é também réu.
 
Os estoicos tinham, para isto, uma prática que chamavam de prosoche, a atenção vigilante sobre si mesmo, anterior a qualquer julgamento do mundo exterior. Não se trata de contemplação narcísica. Trata-se de uma higiene intelectual e moral: antes de pronunciar sentença, verificar se o tribunal interior está em ordem, se os próprios afetos não contaminaram a razão, se o que se julga no outro não é, afinal, aquilo que se recusa a julgar em si. 
 
Este exame não paralisa o juízo. Ao contrário, faz dele um ato de integridade em vez de um ato de poder. O medo de ser julgado, por seu lado, só se desfaz quando o sujeito internaliza, a custo de muita vida vivida, que a opinião alheia não tem poder ontológico: ela pode ferir, pode excluir, pode silenciar, mas não pode alterar o que se é.
 
Esta distinção, entre o que se aparenta e o que se é, entre a imagem que o outro constrói e o sujeito que persiste para além dessa imagem, é o fundamento de qualquer liberdade digna desse nome. Não é indiferença. É distinção. É saber, como ensinava Marco Aurélio, que a cidadela interior não é tomada de fora: ela apenas é abandonada de dentro.
 
No fundo, julgar e ser julgado são as duas faces de um mesmo mistério: o mistério de vivermos sempre expostos, sempre incompletos, sempre interpretando e sendo interpretados. A sabedoria não está em escapar deste circuito, o que seria impossível e, em certa medida, indesejável. Está em habitá-lo com a consciência suficiente para não ser destruído por ele. Em julgar como quem sabe que julgará a si mesmo pelo padrão que aplica. Em suportar ser julgado como quem sabe que o veredito definitivo não pertence a nenhum tribunal humano.
 
Há uma frase de Montaigne que ressoa, com uma quietude que desafia os séculos: "Cada homem traz em si a forma inteira da condição humana." Se isso é verdade, então o julgamento que fazemos do outro é sempre, em última instância, o julgamento que fazemos de nós mesmos por procuração. E o medo de ser julgado é, no limite, o medo de que alguém encontre o que nós próprios escondemos, com tanto cuidado, debaixo das palavras certas e dos gestos convenientes.
 
O tribunal nunca fecha. A questão é apenas se seremos seus escravos ou seus juízes conscientes.
 
Texto de Oliver Harden...

Autor: Eduardo Gomes
Data: 03/04/2026

 

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